Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos;
Pelas pequeninas aranhas.
Minha grande ternura
Pelas mulheres que foram
meninas bonitas
E ficaram mulheres feias;
Pelas mulheres que foram
desejáveis
E deixaram de o ser.
Pelas mulheres que me amaram
E que eu não pude amar.
Minha grande ternura
Pelos poemas que
Não consegui realizar.
Minha grande ternura
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldade.
Minha grande ternura
Pelas gotas de orvalho que
São o único enfeite de um
túmulo.
Manuel Bandeira (1886-1968)
sábado, 3 de setembro de 2011
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Trojan Reggae Rarities Box Set - Vol.3
A Caranguejos Antenados volta com um presente ao amante do reggae raiz: o disco Trojan Reggae Rarities Box Set. Neste artigo comentarei o volume 3, que completa esta trilogia de 50 músicas selecionadas pela gravadora lendária Trojan Records. Com 16 clássicos da música jamaicana, Reggae Rarities 3 é uma miscelânea de estilos harmônicos que formaram o reggae tradicional da região.
Do rocksteady ao dancehall, do dub ao mod reggae, Reggae Rarities resgata e apresenta artistas da era de ouro da música caribenha, contribuindo assim para a difusão das harmonias multiculturais da região, formada por várias matrizes étnicas díspares que colonizaram a área. Desse caldeirão fervente nasceram grandes nomes da música que estão presentes neste disco.
Desde releituras de clássicos da música internacional como Moon River, na voz de Greyhound, e Rose Garden, na voz de Teddy Brown, passando pelas divas da The Marvels, cantando Touch me baby, e Sugar Simone em Rock and Cry, até o roots Junior english em Back to the scene. Pedradas como B.B.C., de Nick Thomas, Check out yourself, do The Cimarons e Rambling man, de Gene Rondo, incrementam este clássico da música mundial.
Com o objetivo de difundir e fomentar a cultura jamaicana ao redor do planeta, a Trojan Records já lançou mais de 50 coletâneas de músicos esquecidos pela indústria elitista e conservadora, que deixa na penumbra grandes artistas e acaba por criar lacunas terríveis na história desta magnífica expressão artística, alimentando uma engrenagem cheia de regras cujo único interesse da gravação e divulgação das artes é o lucro obtido, mesmo que esse venha em detrimento da qualidade e profissionalismo.
Músicas:
01.Keep on trying – Tony Nash
02.Moon river – Nicky Thomas
03.B.B.C – Teddy Brown
04.Rose garden – Dave Barker
05.Shacatac – Dave Barker
06.Little today, little tomorrow – Winston Francis
07.Check out yourself – The Cimarons
08.You can’t buy my love – Donna Dawson
09.Just because – Danny Ray
10.Back on the scene – Junior English
11.Touch me baby – The Marvels
12.How could you do this – Dansak & Nora Dean
13.Ramblin’ man – Gene Rondo
14.I’ll be free someday – Candy Lewis
15.You are mine - Honeyboy
16.Reggae man – Teddy Davis
Site onde o download do disco está disponível:
http://casaraodoreggae.blogspot.com/2010/04/trojan-reggae-rarities-box-set.html
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Carolina, de Machado de Assis
Querida, ao pé do leito
derradeiro
Em que descansas dessa longa
vida,
Aqui venho e virei, pobre
querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto
verdadeiro
Que, a despeito de toda a
humana lida,
Fez a nossa existência
apetecida
E num recanto pôs o mundo
inteiro.
Trago-te flores - restos
arrancados
Da terra que nos viu passar
unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
Que eu, se tenho nos olhos
malferidos
Pensamentos de vida
formulados,
São pensamentos idos e
vividos.
Machado de Assis (1839-1908)
derradeiro
Em que descansas dessa longa
vida,
Aqui venho e virei, pobre
querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto
verdadeiro
Que, a despeito de toda a
humana lida,
Fez a nossa existência
apetecida
E num recanto pôs o mundo
inteiro.
Trago-te flores - restos
arrancados
Da terra que nos viu passar
unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
Que eu, se tenho nos olhos
malferidos
Pensamentos de vida
formulados,
São pensamentos idos e
vividos.
Machado de Assis (1839-1908)
terça-feira, 19 de julho de 2011
Última metáfora, de Dione Barreto
Antes de ontem
se importava em manter as dores
debaixo do tapete
nos dias de número par
varria solidões
temperava saudades
e quando em vez
descongelava a cama
mas era no fogão
de acendedor
automático
onde requentava
cotidianamente
pedaços de filmes
pitadas de livros
conchas de espetáculos
ao som do renitente
ban-do-ne-on
de astor piazzola
chegado o dia
de número impar
banhou-se
vestiu-se
conferiu o calendário
e sentenciou:
parto de bagagem rápida
antes que o altar doméstico
destrua
a possibilidade da última
metáfora
Dione Barreto é poeta paraibana
se importava em manter as dores
debaixo do tapete
nos dias de número par
varria solidões
temperava saudades
e quando em vez
descongelava a cama
mas era no fogão
de acendedor
automático
onde requentava
cotidianamente
pedaços de filmes
pitadas de livros
conchas de espetáculos
ao som do renitente
ban-do-ne-on
de astor piazzola
chegado o dia
de número impar
banhou-se
vestiu-se
conferiu o calendário
e sentenciou:
parto de bagagem rápida
antes que o altar doméstico
destrua
a possibilidade da última
metáfora
Dione Barreto é poeta paraibana
Orion, de Carlos Drummond de Andrade
A primeira namorada, tão alta
que o beijo não a alcançava,
o pescoço não a alcançava,
nem mesmo a voz a alcançava.
Eram quilômetros de silêncio.
Luzia na janela do sobradão.
In Boitempo, 1976
que o beijo não a alcançava,
o pescoço não a alcançava,
nem mesmo a voz a alcançava.
Eram quilômetros de silêncio.
Luzia na janela do sobradão.
In Boitempo, 1976
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Tomara, de Vinícius de Moraes
Toma
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho
Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem
se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais
Vinícius de Moraes é poeta carioca
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho
Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem
se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais
Vinícius de Moraes é poeta carioca
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Meu pai, de Ferreira Gullar
Meu pai foi
ao Rio se tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos
na viagem
quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro
Ferreira Gullar, poeta maranhense
ao Rio se tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos
na viagem
quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro
Ferreira Gullar, poeta maranhense
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